5 de agosto de 2013

Ícones velhos de uma República nova

No centro de São Paulo (SP), o Shopping Light não consegue apagar a memória do prédio histórico em que se estabelece. Antiga sede da Light, companhia que administrava a energia elétrica para a cidade, a estrutura continua com um ar antigo e permanece como uma amálgama no coração do bairro República. Na frente do shopping localiza-se o Teatro Municipal, local em que ocorreram diversas manifestações culturais de rara importância não somente para a capital, mas para o país inteiro. Se antes ocorriam eventos como a Semana de Arte Moderna de 1922, atualmente, o mais próximo da cultura que o local chega é um propaganda do Banco do Brasil, geralmente passada antes de filmes cult, que mostra alguns artistas, obviamente, de diversas etnias, fazendo danças e cantos nas escadas do teatro. A República define São Paulo, mas não por estes antigos monstros icônicos da história paulista. A menos de 40 metros, à direita do shopping Light e em frente ao teatro, há um outro símbolo da capital, que nada tem a ver manifestações artísticas: as Casas Bahia.

Primeiro, é preciso falar um pouco sobre o entorno da loja, que ocupa praticamente um quarteirão. Bem na frente das Casas Bahia, onde há uma entrada subterrânea de metrô desativada, são realizadas, diariamente, apresentações de música popular. De segunda à sexta, bandas de forró tocam naquela área e os populares assistem, formando uma roda em volta dos artistas. Observa-se o divertimento dos mendigos, que dançam alcoolizados e famintos, balbuciando algo que eles acham ser a letra das canções.

Além da música comercial de origem nordestina, vê-se, vez ou outra, um velho senhor de óculos que entoa músicas de Elvis Presley e Beatles, dando explicações históricas e contextualizando as letras entre as atuações. Porém, percebe-se que o senhor, que se diz muito viajado e cheio de conhecimento, apenas quer disseminar sua ideologia religiosa. Usando o rock, música libertária, e seu talento para tocar covers de hinos do gênero, o senhor engomado passa mensagens bíblicas, conta histórias de Cristo e discursa sobre seus credos. Faz, até mesmo, comparações entre ídolos roqueiros como John Lennon, Mick Jagger e os personagens da Bíblia.

Abaixo da cobertura das Casas Bahia, ladeando a arena musical, moradores de rua dormem na frente da loja, cheios de cobertores e com seus poucos pertences. Observados por guardas de um posto policial da GCM (Guarda Civil Metropolitana), talvez, sonhem em um dia comprar eletrodomésticos e armarinhos para seus barracos. Ou talvez, sonhem em realizar uma grande assalto, roubando os milhões do comércio para depois gastarem com pingas, jukeboxes falidas e putas. Pois, afinal, nas Casas Bahia...  Paga-se o quanto se quer...

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