16 de novembro de 2012
4 de novembro de 2012
Nosferatu ao vivo no Parque do Ibirapuera
A 36ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo foi
encerrada com classe. Para o último dia, foi organizado um evento a céu aberto
no Parque do Ibirapuera. Com trilha sonora tocada ao vivo pela Orquestra Petrobrás,
foi exibido o filme Nosferatu, do diretor Friedrich Wilhelm Murnau. O longa é
de 1922, mas a película utilizada na Mostra foi uma cópia restaurada com
correções de imagem. Para a apresentação, a orquestra tocou no palco do Auditório
e o filme foi projetado na parede, logo acima dos músicos. A plateia, que
juntou grande público, reuniu-se no gramado em frente espaço.
Do início ao final do filme, a orquestra tocou em total
sincronia com as imagens, estabelecendo um clima de suspense no local. A trilha
sonora, composta na época do filme por Hans Erdmann, foi conduzida pelo maestro
Pierre Oser. “Podemos dizer que o cinema mudo nunca foi de fato mudo, era
sempre apresentado com uma música. A diferença fundamental da música no cinema
mudo tem uma função dramatúrgica, com origem no teatro, na ópera”, afirmou o
regente em reportagem ao site oficial da Mostra. “Em 1929, havia em Berlim, nas
maiores salas de cinema, mais de 50 músicos para o acompanhamento dos filmes”,
completou.
Não haveria melhor clima para apresentação do filme. No
início da noite de dois de novembro de 2012, um clima frio se instalou na cidade e a chuva ameaçava cair,
contrastando com os dias quentes do início daquela semana. O vento gelado passeava
pela multidão sentada na grama, que bebia, fumava cigarros e usava drogas leves.
Os mais precavidos levaram mantas ou panos para sentar, viam-se grupos de
amigos, casais abraçados, garrafas de vinho, fios de fumaça, risadas e rostos surpresos a cada cena.
No meio do filme, alguns seres voadores passaram por cima do
público fazendo um barulho estranho. Junto ao clima sombrio e à música soturna,
os animais lembravam morcegos celebrando o rei Nosferatu, que reinava sobre seus
súditos nas alturas em que sua imagem era projetada. Na primeira aparição dos bichos, a multidão ameaçou uma salva de palmas. Depois, os vultos continuaram passeando pelos
céus, mas deram alguns rasantes no público, deixando algumas pessoas com medo
de ter seus pescoços sugados como o Hutter, agente imobiliário perseguido pelo Conde Orlok no filme.
Porém, como em todo evento público, existem as velhas
conversinhas paralelas, pessoas levantando o tempo todo e assoviando. Antes do
final do filme, ao menos umas 50 pessoas já tinham ido embora. Mas a maioria manteve-se
firme, mesmo trocando a posição do corpo várias vezes na grama. Ao fim da
apresentação, os mais de 20 mil presentes aplaudiram em pé a Orquestra Petrobrás e a obra de
Murnau.
1 de novembro de 2012
Best Coast
Best Coast é uma banda americana de surf-pop radicada em Los
Angeles. O grupo surgiu em 2009 com Bethany Cosentino nos vocais e guitarra e o
multi-instrumentista Bobb Bruno em várias funções. A banda teve diversos
bateristas em suas apresentações ao vivo. Ali Koehler, da banda Vivian Girls,
foi quem assumiu as baquetas mais vezes com a dupla. O Best Coast pode ser
enquadrado nos gêneros lo-fi, surf pop e garage rock.
O Best Coast assinou com os selos Mexican Summer (EUA) e Wichita
Records (Europa), que lançaram o álbum Crazy for You no mês de julho de 2010. Antes disso, o grupo já
tinha lançado alguns singles por selos independentes, a música Make You Mine
pelo Group Tightener e a música Something in the Way pelo Post Present Medium.
Porém, a banda optou por não incluir este material no seu disco de estreia.
Em abril de 2010, a banda gravou um clipe para o single “When
I'm with You”, no qual Bethany Cosentino contracena com o palhaço do Mac Donald’s,
Ronald. Os dois passeiam por praias da Califórnia, dormem abraçados na areia e
trocam carícias enquanto a vocalista canta algo como “quando estou com você, eu
me divirto”. Nada mais comum do que se divertir com um palhaço.
Em junho de 2011, a banda lança a música “Gone Again” como
segundo single no Kia Singles Program, do Adult Swim. No mês seguinte, gravam o
clipe para a música “Our Deal”, que foi dirigido por Drew Barrymore. Em
outubro, o single “When I'm With You” fez parte da série de games Rocksmith.
Em 2012, o Best Coast foi anunciado para tocar no festival
Big Day Out. Neste ano, eles também tocaram no Metallica's first Orion Music e
no More Festival. Porém, em 2012, com o lançamento do segundo álbum, “The Only
Place”, ficou evidente uma mudança na sonoridade, desta vez mais limpa e mais
longe das músicas vintage do primeiro disco. Em uma entrevista, os músicos afirmaram
que isso ocorreu devido ao “estilo de composição, que se tornou diferente”,
além de estarem gravando “em um estúdio mais profissional”.
Em 2013, serão a banda de abertura da turnê do Green Day.
Mamã, Conto de Florbela Espanca
Noite negra e tempestuosa! No céu não luzia uma estrela, o vento soprava com violência, e flocos de neve envolviam, como em alva mortalha, a aldeia adormecida. Só ao longe milhares de luzes ardiam no soberbo castelo. Perfumes, flores, sedas, rendas e cá fora, numa humilde choupana à beira da estrada, fome, miséria e lamentos. Vivia ali uma pobre camponesa com dois filhinhos. Magros, doentes, pediam esmola pelos casais. Agora choravam. Tinham fome e não tinham pão, os míseros pequeninos.
No único aposento via-se apenas uma enxerga onde, com a
cabeça entre as mãos, a pobre mãe pensava, talvez, no futuro bem negro dos
filhinhos.
A contrastar, porém, singularmente com a miséria do casebre,
via-se um berço elegante e lindo. Envolviam-no rendas e arminhos. Dentro um
pequeno gentil dormia, com a linda cabecita emoldurada nos anéis doirados do
seu cabelo loiro. Nos lábios pairava-lhe um sorriso meigo de anjo dormente.
Abre-se a porta de repente. Uma mulher divinalmente formosa,
envolta em ondas de rendas e sedas, arrastando altiva a longa cauda, entra na
choupana.
A camponesa ergue-se admirada, enquanto a fidalga adulada,
invejada, que tinha a seus pés um mundo de adoradores, não receando amarrotar
as rendas caras do seu opulento vestido de baile, ajoelhou humilde ante o
bercito do filho do crime, que tinha de beijar furtivamente; inclinou a cabeça,
e duas lágrimas brilhantes como gotas de orvalho se desprenderam dos olhos,
resvalando-lhe pelas faces, que foram cair nas do pequenito que, a sorrir no
seu sorriso de anjo, balbuciou mimoso:
– Mamã!
Yuck
Yuck é uma banda de Londres que apresenta influências de grupos dos anos 90 em sua sonoridade. O Yuck é formado por Max Bloom e Daniel Blumberg, ambos tocavam no Cajun Dance Party.
O primeiro álbum da banda, Yuck, foi lançado pelo selo Fat Possum (fatpossum.com) no dia 21de fevereiro de 2011 no Reino Unido. Na época, os críticos musicais ligaram o Yuck a bandas como Dinosaur Jr, Pavement, My Bloody Valentine e Sonic Youth.
Em 2011, a banda se apresentou em São Paulo/SP em um show fechado. Segundo reportagem publicada no site da Folha de São Paulo, a apresentação da banda foi extremamente fiel ao disco de estreia e eles tocaram sons como “Get Away”, “The Wall”, “Georgia” e “Holing Out”.
De acordo com Juliana Zambelo, que assina a matéria, “no palco, a baixista Mariko Doi chama atenção por sua expressão carrancuda e a franja que esconde quase metade de seu rosto e o baterista Jonny Rogoff parece se divertir com seu enorme cabelo black power. Mas são as guitarras distorcidas de Daniel Blumberg e Max Bloom que se destacam na apresentação, honrando a tradição das bandas de indie rock dos anos 90 que os influencia”.
O Yuck é: Daniel Blumberg – vocais, guitarra / Max Bloom – guitarra, vocais / Mariko Doi – baixo / Jonny Rogoff – bateria
Fontes:
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/933526-com-guitarras-altas-e-vocal-baixo-yuck-faz-bom-show-curto-em-sp.shtml
http://en.wikipedia.org/wiki/Yuck_(band)
http://www.fatpossum.com/
19 de outubro de 2012
Você sabe o que é pantomima?
Entenda um pouco mais sobre esta famosa manifestação artística que tinha o respaldo do público e dos grandes imperadores na época da Roma Antiga. A arte, embora apreciada, resultou na perseguição de seus atores e atrizes, causando a morte de muitos deles. No artigo abaixo, de autoria de Antonio Rodrigues, é relatado todo panorama da época.
Link para o texto original: http://www.artigos.com/artigos/humanas/filosofia/pantomima-7041/artigo/
A língua portuguesa é rica em todos os detalhes. Como também uma das mais difíceis, visto que por se tratar de um país continental as diferentes regiões brasileiras possuem o seu vernacular. É notório que a cultura brasileira segue a mesma dinâmica da língua, hoje é tão comum vermos pequenos dicionários com as palavras mais usadas na região. São palavras usadas no dia a dia, mas não podem ser inseridas na escrita da língua portuguesa, senão mataremos a mesma. No dicionário Cearês, temos uma infinidade delas. Por curiosidade nas nossas pesquisas deparamo-nos com a palavra pantomima, que nos chamou a atenção. De bom alvitre achamos de bom proveito dissecá-la. Pantomima é um teatro gestual que faz o menor uso possível de palavras e maior uso de gestos.
É a arte de narrar com o corpo. É uma modalidade cênica que se diferencia da expressão corporal e da dança, basicamente é a arte objetiva da mímica, é um excelente artifício para comediantes, cômicos, shows, atores, bailarinos, enfim, os intérpretes. Nesta modalidade, os pantomímicos precisam buscar a forma perfeita, a estética da linha do corpo, pois através do gesto tudo será dito, uma boa pantomima está na habilidade adquirida pelo pantomímico em se transfigurar no ato da interpretação, passando para a platéia a mensagem de Jesus Cristo.
É uma das artes que exige o máximo do artista para que este receba o máximo de retorno do público, ou seja, a atenção da platéia para que a Palavra seja passada devidamente. Os grandes atores e atrizes trabalham com a pantomima, mas não é uma técnica fácil. E por não ser mímica a arte da pantomima exige certo conhecimento dos profissionais.
Ela está presente na música, na escultura, na pintura, balé e na linguagem do surdo-mudo, também na dublagem, nas emoções, na dança, no amor, na tristeza, no ódio e também na alegria. A mímica tem uma conotação em sua formação literária, pois é um substantivo que vem do adjetivo mímico ou vice-versa. A arte de fazer acompanhar de gestos precisos e adequados a idéia ou sentimento que se exprime; gesticulações, línguas de sinais utilizada na Europa em especial na Espanha leva o nome de pantomima. Dizem alguns estudiosos sobre o assunto que mímica e movimento, por isso não pode ser pantomima, mas há que diga que mímica é se deslocar ao Golfo Pérsico, ao Oriente Médio, e sair com vida, ou sem mímica. Já a pantomima é ter noção do por que e quais as verdadeiras nuanças, motivos, que levaram os soldados ao Oriente Médio, e também toda aquela parafernália que acontece por lá.
Pantomima é a arte da mímica, do movimento corporal que conta, objetivamente os porquês de uma história, e por mais que seja difícil e trabalhoso introduzir a pantomima em um grupo de dramaturgos, Jesus nos capacita, Ele sabe o quanto a pantomima costuma impressionar e chamar a atenção da platéia, muitas vezes esta técnica é mais utilizada do que a dramaturgia, por ser de fácil assimilação, por chamar a atenção, por ser praticamente universal.
Pantomima é a síntese dos pensamentos e dos sentimentos. Por isso, é que também no Brasil, a pantomima, como todas as Grandes Artes, é pouco conhecida. Mas isso é outro assunto. “Chama-se analfabetismo.” Estar com a mente ligada, atenta e concentrada na Palavra que se almeja passar ao público é de extrema importância a fim de transformar a palavra em pantomima utilizando a imaginação. Como a pantomima é extremamente dependente do espaço onde será ministrada, não é porque temos uma pronta que não há nada a ser acrescentado e modificado, sempre há o processo de adaptação ao elenco, ao espaço e ao objetivo, portanto, a imaginação do diretor é fundamental nesta modalidade. Jesus o grande Mestre fazia isso com muita destreza e facilidade. Um dos estudiosos na pantomima é Ricardo Bandeira.
Ele é um verdadeiro artista, clínico geral em diretoria de arte, diretor de atores e atrizes, figurinista, produtor roteirista entre outros. Nas entrelinhas pairou uma dúvida se a pantomima é mímica ou não, mas segundo aqueles que lidam com a arte dizem que sim, pois mímica também é movimento. Se observarem a linguagem dos surdos-mudos existe até um movimento exagerado das mãos. É um assunto muito bom, mas um pouco polêmico.
Como sempre afirmo em minhas conotações o site Wikipédia é um dos melhores do mundo e lá vocês poderão encontrar todas as nuanças sobre a pantomima, desde a sua origem, finalidade, importância, e quais os povos que mais usam e que tipos de profissionais fazem uso dessa cultura. Será que o cinema mudo faz parte da pantomima? Em Chaplin, Buster Keaton e Jaques Tati, encontramos a pantomima cinematográfica com sua gramática e técnica próprias da época. Na dança, temos também o balé-pantomima, que procura contar objetivamente uma história. Pantomima não são códigos nem idiomas que necessitamos aprender, mas apesar do cinema ser mudo existe o movimento contrariando o pensamento daqueles que defendem que a pantomima não é movimento. Deixando no ar uma indagação perguntamos aos leitores o que acham da pantomima? Existe a linha ferrenha que defende determinados atributos para qualificarmos a pantomima, tampouco é, através de gestos, expressões corporal e facial, tradução, imitação de palavras ou frases. A pantomima não imita nada. Cria.
A pantomima não tem sinonímia, portanto não pode ser sofista. Também não tem o direito, como certas palavras, livros e artes, de ser ambígua, incompreensível, subjetiva, complicada. A pantomima tem por lei a objetividade, sem ser didática e chata. Então a pantomima é quadrada? Não. Nem redonda ou retangular. É espiral e infinitamente dialética. Faz o espectador lembrar que tem cérebro. Que raciocina mesmo quando ri. Até quando sonha. Também quando chora. Com certeza não detalhes ou definições que variam de estudiosos para estudiosos e se prestarmos bem a atenção uma discussão natural acerca do significado da palavra campeia as linhas desta matéria. Se você tiveram uma definição mais plausível aceitamos de coração. Fiquem com Deus.
13 de outubro de 2012
Análise do conto Meninão do Caixote - João Antônio
Um tempo atrás postei no blog o conto Meninão do Caixote, do João Antônio, na íntegra. Nesse post vai uma análise do texto, encontrada no site infoescola.com
Análise sobre o conto Meninão do Caixote – João Antônio
O conto do escritor paulistano João Antônio, Meninão do Caixote, publicado no livro de contos Malagueta, Perus e Bacanaço, de 1963, apresenta a história de um menino que descobre ser um talento da sinuca. O garoto é fã de seu pai, que dirige um caminhão e o leva para o bairro da Vila Mariana, onde se diverte em uma lagoa. Por outro lado, o relacionamento do menino com a mãe é diferente. Ela vive repreendendo-o, dizendo o que fazer e lhe castigando.
O garoto descobre o talento da sinuca quando, a pedido de sua mãe, vai fazer compras no Bar Paulistinha. Com o início de uma chuva, ele é obrigado a ficar no estabelecimento, onde alguns homens estão jogando sinuca, entre eles Vitorino, que fica amigo do jovem. O menino, mais baixo pela idade, pega um caixote e coloca na beira da mesa, sobe nele para assistir o jogo. Então tem a oportunidade de jogar, vai aprendendo, jogando, e, aos poucos, se torna um taco, como eram chamados os bons jogadores.
No seguinte trecho, João Antônio descreve como foi a descoberta do garoto: “Joguei, joguei muito, levado pela mão de Vitorino, joguei demais. Porque Vitorino era um bárbaro, o maior taco da Lapa e uma das maiores bossas de São Paulo. Quando nos topamos Vitorino era um taco. Um cobra. E para mim, menino que jogava sem medo, porque era um menino e não tinha medo, o que tinha era muito jeito, Vitorino ensinava tudo, não escondia nada”.
Porém, a vida do novo jogador de sinuca entra em confronto com suas obrigações escolares e as preocupações de sua mãe. Ele começa a cabular aulas, tem discussões com a mãe e foge pela janela de casa para jogar. Agora a jogatina vale dinheiro, Vitorino torna-se uma espécie de agenciador do garoto, arrumando adversários, fazendo grana e passando sua fama no boca a boca dos botecos suburbanos.
O menino tentava largar o “joguinho”, como é descrito no trecho: “Larguei uma, larguei duas, larguei muitas vezes o joguinho. Entrava nos eixos. No colégio melhorava, tornava-me outro, me ajustava ao meu nome”.
Porém, Vitorino, sedento por mais dinheiro e por ver o menino jogar, voltava para convencer o garoto a retornar ao salão. “Vitorino arrumava um jogo bom, me vinha buscar. Eu desguiando, desguiando, resistia. Ele dando em cima. Se papai estava fora, eu acabava na mesa. Tornava à mesa com fome das bolas, e era: uma piranha, um relógio, um bárbaro. Jogando como sabia”.
Porém, a preocupação da mãe com o menino é representada em seu ápice quando, em uma das sessões de jogatina do bar, ela aparece com a marmita para o filho. O garoto vê aquela cena, a mãe saindo de cortinhas verdes com sua comida em mãos, não aguenta e começa a chorar. É acudido pelos seus companheiros de sinuca, “Que é? Que é isso? ô Meninão!”. Então promete a si mesmo que vai abandonar o jogo novamente. De forma lírica, João Antônio encerra o conto: “Larguei as coisas e fui saindo. Passei a cortina, num passo arrastado. Depois a rua. Mamãe ia lá em cima. Ninguém precisava dizer que aquilo era um domingo… Havia namoros, havia vozes e havia brinquedos na rua, mas eu não olhava. Apertei meu passo, apertei, apertando, chispei. Ia quase chegando. Nossas mãos se acharam. Nós nos olhamos, não dissemos nada. E fomos subindo a rua”.
Análise sobre o conto Meninão do Caixote – João Antônio
O conto do escritor paulistano João Antônio, Meninão do Caixote, publicado no livro de contos Malagueta, Perus e Bacanaço, de 1963, apresenta a história de um menino que descobre ser um talento da sinuca. O garoto é fã de seu pai, que dirige um caminhão e o leva para o bairro da Vila Mariana, onde se diverte em uma lagoa. Por outro lado, o relacionamento do menino com a mãe é diferente. Ela vive repreendendo-o, dizendo o que fazer e lhe castigando.
O garoto descobre o talento da sinuca quando, a pedido de sua mãe, vai fazer compras no Bar Paulistinha. Com o início de uma chuva, ele é obrigado a ficar no estabelecimento, onde alguns homens estão jogando sinuca, entre eles Vitorino, que fica amigo do jovem. O menino, mais baixo pela idade, pega um caixote e coloca na beira da mesa, sobe nele para assistir o jogo. Então tem a oportunidade de jogar, vai aprendendo, jogando, e, aos poucos, se torna um taco, como eram chamados os bons jogadores.
No seguinte trecho, João Antônio descreve como foi a descoberta do garoto: “Joguei, joguei muito, levado pela mão de Vitorino, joguei demais. Porque Vitorino era um bárbaro, o maior taco da Lapa e uma das maiores bossas de São Paulo. Quando nos topamos Vitorino era um taco. Um cobra. E para mim, menino que jogava sem medo, porque era um menino e não tinha medo, o que tinha era muito jeito, Vitorino ensinava tudo, não escondia nada”.
Porém, a vida do novo jogador de sinuca entra em confronto com suas obrigações escolares e as preocupações de sua mãe. Ele começa a cabular aulas, tem discussões com a mãe e foge pela janela de casa para jogar. Agora a jogatina vale dinheiro, Vitorino torna-se uma espécie de agenciador do garoto, arrumando adversários, fazendo grana e passando sua fama no boca a boca dos botecos suburbanos.
O menino tentava largar o “joguinho”, como é descrito no trecho: “Larguei uma, larguei duas, larguei muitas vezes o joguinho. Entrava nos eixos. No colégio melhorava, tornava-me outro, me ajustava ao meu nome”.
Porém, Vitorino, sedento por mais dinheiro e por ver o menino jogar, voltava para convencer o garoto a retornar ao salão. “Vitorino arrumava um jogo bom, me vinha buscar. Eu desguiando, desguiando, resistia. Ele dando em cima. Se papai estava fora, eu acabava na mesa. Tornava à mesa com fome das bolas, e era: uma piranha, um relógio, um bárbaro. Jogando como sabia”.
Porém, a preocupação da mãe com o menino é representada em seu ápice quando, em uma das sessões de jogatina do bar, ela aparece com a marmita para o filho. O garoto vê aquela cena, a mãe saindo de cortinhas verdes com sua comida em mãos, não aguenta e começa a chorar. É acudido pelos seus companheiros de sinuca, “Que é? Que é isso? ô Meninão!”. Então promete a si mesmo que vai abandonar o jogo novamente. De forma lírica, João Antônio encerra o conto: “Larguei as coisas e fui saindo. Passei a cortina, num passo arrastado. Depois a rua. Mamãe ia lá em cima. Ninguém precisava dizer que aquilo era um domingo… Havia namoros, havia vozes e havia brinquedos na rua, mas eu não olhava. Apertei meu passo, apertei, apertando, chispei. Ia quase chegando. Nossas mãos se acharam. Nós nos olhamos, não dissemos nada. E fomos subindo a rua”.
11 de outubro de 2012
Galaxy S3 apresenta grave falha de segurança
Um dos sistemas que equipam o Galaxy S3, chamado TouchWiz,
apresentou um bug em sua interface. Este problema pode fazer com que os dados
de equipamentos da marca Samsung sejam deletados. O bug foi detectado por um
pesquisador da Universidade Técnica da cidade de Berlin, Ravi Borgaonkar, que
expôs a falha do Galaxy S3 em uma feira de segurança digital.
Ao acessar um link que se encontrava exposto no Twitter, o
pesquisador perdeu todas as informações que estavam anteriormente no
equipamento. Quando direcionado para o link que contém o contém, o código pode
ser acessado por SMS, NFC, pelo navegador até mesmo por QR code.
Este bug, além de desaparecer com todos os dados do
smartphone, pode causar bloqueio do cartão SIM. Caso o utilizador não saiba a
senha para acessar o chip, há risco de o cartão tornar-se inutilizável. De
acordo com informações do portal especializado SlashGear, o código somente pode
ser usado por aparelhos com interface Galaxy S3, Galaxy S2, Galaxy S Advance,
Galaxy Ace e Galaxy Beam. Equipamentos da marca Samsung que não possuem o
TouchWiz não correm o risco de perder os dados causados pelo bug. A empresa
ainda não fez um pronunciamento oficial sobre o problema.
Atualizando em tempo: a marca já resolveu esta falha.
Vamos passear no inferno, deixa o menino queimar...
Por Mano Crow †
Recebi uma chamada no celular. Não, não era engano, era o Chefe Insular. Dois passos para a esquerda, dois para a direita. Tirei o meu fone, chupei minha chupeta. Tinha missão. Seis da manhã é foda. Trampo de governo, mó perigo e mó nota. Era cedo, o aluguel não tava pago, me olhei no espelho. Mano, que estrago! Também, quem mandou eu chegar ontem nas primas? Senti tesão, foi brincadeira. Elas não perdoam, te deixam só a caveira. Muito lixo no ar, muita vergonha no quadril. Sai de lá vazado, vai pra puta que pariu.
Mas hoje é diferente e eu não posso vacilar, arrumei meu capacete, calculei tudo e pá. De lupa Google View, as mina arrepia. O air-bus veio vazio, vários lugar, várias tia. Sentei lá no fundão, tipo tempos de escola. Aê! Olha ele aí, professor pulava fora. Fui dando um cochilo que é pra mente descansar. O dia ia ser cheio, to firmão, vamo lá. Chegando no recinto um tiozinho veio em mim. Pediu credencial, eu já sabia, normal. Mostrei o cano pro irmão. Posso subir, cuzão? Funcionário do governo, pique de estilista, fui subindo as escadas, mascando umas birita.
Abri a porta nove, a maior loucura. A Neide caminhando. Mano, que cintura. Ela veio em mim com aquela voz adocicada. “Meu filho, vamo lá, eu to sem tempo pra nada”. Já veio me entregando o teclado e a lingüera. Eu já sabia, hã, missão na geladeira. Nem liguei, mó fita, eu já tava acostumado, aquela vagabunda nunca via o meu lado. Desci no 27, várias mina na esteira. “Ô, Crow! Que que é isso? Só chave da cadeia!”. Passei das carne fresca. Digitei os código, a porta se abriu, era ali, tava óbvio.
Uma geladeira, daquelas bem antiga, pique anos 50, vixi, mil fita. Tinha umas divisão, marmita, salada. Esfreguei a minha lupa e peguei as coordenada. Decodifiquei, passei pela marmelada, inacreditável, mas ela estava armada. Já veio lá debaixo espirrando cajuzinho. Aqui não, desviei, tipo Matrix, igualzinho. Arrumei minha bombeta, a lupa me indicou, era só mirar no coração e acabou. Me esquivei pra esquerda, carreguei minha lingüera, acertei a fodida bem no meio das teta. Háááááá. Não era você a foda e pá? Senhora dos iate, rainha do tomate? Agora ta escorrida num bolo de chocolate. Eu falei, mas ninguém escutou, não testa minha fé, que aqui não tem jow. Corpo fechado de Jorge, nem Jesus tenta a sorte. Treta malandragem, irmão, aqui é morte.
Acho que eu deixei as comidas ouriçadas, tipo aquelas mina quando vê coisa da Prada. Uma pá de ovo, lanche de salsicha, tinha até uns feijão querendo entrar na fita. E lá de cima, do segundo andar, várias batata frita querendo me pegar. Foi aí que eu pensei. Agora fodeu, avisa o Chefe Insular que a missão se escafedeu. Não, eu não, não luto por bacana. Chutei a prateleira e fugi com a minha grana. Sai vazado, fui mordido por um alho, vi uma porta aberta e pulei fora sem galho.
Várias ligação do Chefe Insular. “Ê Crow, seu vagabundo, polícia vai te pegar”. Ih, jão, já dei fuga, roubei uma cegonha, eu vô com os irmão é pra Fernando de Noronha. Já era, perdeu, otário vacilão, fica você com a Neide aí ouvindo um pancadão. Babaca de escritório, gravata borboleta, mexeu com a favela se fudeu, proxeneta. Parei lá na quebrada, vários truta sangue bom, só malandro clássico e mina de batom. “Sobe ae doidão, vai logo que tá osso. To sendo perseguido por uns mano cabuloso”.
Viagem demorada, muita droga pesada. Só assim pra aguentar, pique mano de estrada. Na BR 28 um veículo suspeito, entrou atrás da gente, piloto de respeito. Veio acelerando. Mano, que esculacho! Ligou as turbinas e voou para o espaço. “Ae Crow, cê num disse que já tinha despistado?”. “Mano, cala boca, senão eu te despacho”. Amigo bom não tem, só os que vêm na voadora, esfreguei a minha lupa, musa salvadora. Ligeira, malandra, me deu as coordenada, direita, esquerda a dez metros da estrada.
Foi aí que eu vi. O portal, a bonança, tipo Silvio Santos na Porta da Esperança. Olhei para os lados, a cegonha comeu chão. A polícia tava longe, pelo espaço, foi em vão. Olhei pra trás, todo mundo zuado. “Eu dando essa fuga e vocês tudo chapado?”. Mas firmeza, tamo aí, de carnaval a carnaval, uma mão lava a outra, assim que é e tal. Eu vi uma luz branca, meio cor de rosa, saía do portal, salvação milagrosa. Meti o pé e acelerei, caminho à salvação, depois não vi mais nada, só aquele clarão.
"Irmão, fuja do caminho do mal, o caminho da ambição não te levará à glória. Fuja do homem violento, irmão!".
Abri os olhos, me assustei. Vários anjo em volta. Todo mundo morto, fúria, revolta. Um mano loiro estranhão, pique playboyzão, veio cheio de luz, começou me dar sermão. Procurei a minha arma, já queria atirar, mas, eles em fila começaram a voar. Cada um ia levando um mano meu nos braços. Peraí, to aqui, e agora que que eu faço? Um anjo me olhou, seu nome era Gabriel, ele falou pra mim “seu lugar não é no céu”. Vixi, aí fodeu, cheiro de enxofre e tal, acho que me dei mal. As portas do inferno se abriram, mil grau. Vi um tiozinho de chapéu, unha grande, quem diria? Hã, eu sabia, o diabo me queria.
Recebi uma chamada no celular. Não, não era engano, era o Chefe Insular. Dois passos para a esquerda, dois para a direita. Tirei o meu fone, chupei minha chupeta. Tinha missão. Seis da manhã é foda. Trampo de governo, mó perigo e mó nota. Era cedo, o aluguel não tava pago, me olhei no espelho. Mano, que estrago! Também, quem mandou eu chegar ontem nas primas? Senti tesão, foi brincadeira. Elas não perdoam, te deixam só a caveira. Muito lixo no ar, muita vergonha no quadril. Sai de lá vazado, vai pra puta que pariu.
Mas hoje é diferente e eu não posso vacilar, arrumei meu capacete, calculei tudo e pá. De lupa Google View, as mina arrepia. O air-bus veio vazio, vários lugar, várias tia. Sentei lá no fundão, tipo tempos de escola. Aê! Olha ele aí, professor pulava fora. Fui dando um cochilo que é pra mente descansar. O dia ia ser cheio, to firmão, vamo lá. Chegando no recinto um tiozinho veio em mim. Pediu credencial, eu já sabia, normal. Mostrei o cano pro irmão. Posso subir, cuzão? Funcionário do governo, pique de estilista, fui subindo as escadas, mascando umas birita.
Abri a porta nove, a maior loucura. A Neide caminhando. Mano, que cintura. Ela veio em mim com aquela voz adocicada. “Meu filho, vamo lá, eu to sem tempo pra nada”. Já veio me entregando o teclado e a lingüera. Eu já sabia, hã, missão na geladeira. Nem liguei, mó fita, eu já tava acostumado, aquela vagabunda nunca via o meu lado. Desci no 27, várias mina na esteira. “Ô, Crow! Que que é isso? Só chave da cadeia!”. Passei das carne fresca. Digitei os código, a porta se abriu, era ali, tava óbvio.
Uma geladeira, daquelas bem antiga, pique anos 50, vixi, mil fita. Tinha umas divisão, marmita, salada. Esfreguei a minha lupa e peguei as coordenada. Decodifiquei, passei pela marmelada, inacreditável, mas ela estava armada. Já veio lá debaixo espirrando cajuzinho. Aqui não, desviei, tipo Matrix, igualzinho. Arrumei minha bombeta, a lupa me indicou, era só mirar no coração e acabou. Me esquivei pra esquerda, carreguei minha lingüera, acertei a fodida bem no meio das teta. Háááááá. Não era você a foda e pá? Senhora dos iate, rainha do tomate? Agora ta escorrida num bolo de chocolate. Eu falei, mas ninguém escutou, não testa minha fé, que aqui não tem jow. Corpo fechado de Jorge, nem Jesus tenta a sorte. Treta malandragem, irmão, aqui é morte.
Acho que eu deixei as comidas ouriçadas, tipo aquelas mina quando vê coisa da Prada. Uma pá de ovo, lanche de salsicha, tinha até uns feijão querendo entrar na fita. E lá de cima, do segundo andar, várias batata frita querendo me pegar. Foi aí que eu pensei. Agora fodeu, avisa o Chefe Insular que a missão se escafedeu. Não, eu não, não luto por bacana. Chutei a prateleira e fugi com a minha grana. Sai vazado, fui mordido por um alho, vi uma porta aberta e pulei fora sem galho.
Várias ligação do Chefe Insular. “Ê Crow, seu vagabundo, polícia vai te pegar”. Ih, jão, já dei fuga, roubei uma cegonha, eu vô com os irmão é pra Fernando de Noronha. Já era, perdeu, otário vacilão, fica você com a Neide aí ouvindo um pancadão. Babaca de escritório, gravata borboleta, mexeu com a favela se fudeu, proxeneta. Parei lá na quebrada, vários truta sangue bom, só malandro clássico e mina de batom. “Sobe ae doidão, vai logo que tá osso. To sendo perseguido por uns mano cabuloso”.
Viagem demorada, muita droga pesada. Só assim pra aguentar, pique mano de estrada. Na BR 28 um veículo suspeito, entrou atrás da gente, piloto de respeito. Veio acelerando. Mano, que esculacho! Ligou as turbinas e voou para o espaço. “Ae Crow, cê num disse que já tinha despistado?”. “Mano, cala boca, senão eu te despacho”. Amigo bom não tem, só os que vêm na voadora, esfreguei a minha lupa, musa salvadora. Ligeira, malandra, me deu as coordenada, direita, esquerda a dez metros da estrada.
Foi aí que eu vi. O portal, a bonança, tipo Silvio Santos na Porta da Esperança. Olhei para os lados, a cegonha comeu chão. A polícia tava longe, pelo espaço, foi em vão. Olhei pra trás, todo mundo zuado. “Eu dando essa fuga e vocês tudo chapado?”. Mas firmeza, tamo aí, de carnaval a carnaval, uma mão lava a outra, assim que é e tal. Eu vi uma luz branca, meio cor de rosa, saía do portal, salvação milagrosa. Meti o pé e acelerei, caminho à salvação, depois não vi mais nada, só aquele clarão.
"Irmão, fuja do caminho do mal, o caminho da ambição não te levará à glória. Fuja do homem violento, irmão!".
Abri os olhos, me assustei. Vários anjo em volta. Todo mundo morto, fúria, revolta. Um mano loiro estranhão, pique playboyzão, veio cheio de luz, começou me dar sermão. Procurei a minha arma, já queria atirar, mas, eles em fila começaram a voar. Cada um ia levando um mano meu nos braços. Peraí, to aqui, e agora que que eu faço? Um anjo me olhou, seu nome era Gabriel, ele falou pra mim “seu lugar não é no céu”. Vixi, aí fodeu, cheiro de enxofre e tal, acho que me dei mal. As portas do inferno se abriram, mil grau. Vi um tiozinho de chapéu, unha grande, quem diria? Hã, eu sabia, o diabo me queria.
31 de agosto de 2012
Leminski era um cara estranho. Parecia um padeiro das letras.
Leminski era um cara estranho. Parecia um padeiro das letras.
Manuscrito achado num bolso
Conto: Manuscrito achado num bolso
Autor: Julio Cortázar
Autor: Julio Cortázar
Manuscrito achado num bolso
Agora que escrevo, para outros isto podia ter sido a roleta ou o hipódromo, mas não era dinheiro que eu procurava, em dado momento tinha começado a sentir, a decidir que uma vidraça de janela no metrô podia me trazer a resposta, o encontro com uma felicidade, precisamente aqui, onde tudo acontece sob o signo da mais implacável ruptura, dentro de um tempo subterrâneo que um trajeto entre estações desenha e limita assim inapelavelmente embaixo. Digo ruptura para compreender melhor (teria de compreender tantas coisas desde que comecei a jogar o jogo) aquela esperança de uma convergência que talvez me fosse dada no reflexo em uma vidraça de janela. Ultrapassar a ruptura que as pessoas não parecem observar embora sabe-se lá o que pensam essas pessoas agoniadas que sobem e descem dos vagões do metrô, o que procura além do transporte essa gente que sobe antes ou depois para descer depois ou antes, que só coincide numa zona do vagão onde tudo está decidido por antecipação sem que ninguém possa saber se sairemos juntos, se eu descerei em primeiro lugar ou esse homem magro com um rolo de papéis, se a velha de verde continuará até o fim, se esses meninos descerão agora, é claro que descerão, porque recolhem seus cadernos e suas réguas, aproximam-se rindo e brincando da porta enquanto lá no canto uma jovem se instala para demorar, para permanecer ainda por muitas estações no assento enfim livre, e aquela outra jovem é imprevisível, Ana era imprevisível, mantinha-se muito tesa contra o encosto no assento da janela, já estava lá quando subi na estação Etienne Marcel e um negro abandonou o assento em frente e a ninguém pareceu interessar e eu pude escorregar com uma vaga desculpa por entre os joelhos dos dois passageiros sentados nos assentos externos e fiquei defronte de Ana e quase em seguida, porque tinha descido ao metrô para jogar mais uma vez o jogo, procurei o perfil de Margrit no reflexo da vidraça da janela e pensei que era bonita, que eu gostava de seu cabelo preto com uma espécie de asa breve que penteava em diagonal à testa.
Não é verdade que o nome de Margrit ou o de Ana viessem depois ou que sejam agora uma maneira de diferenciá-las por escrito, coisas assim eram decididas instantaneamente pelo jogo, quero dizer que de maneira alguma o reflexo na vidraça da janela podia chamar-se Ana, assim como também não podia chamar-se Margrit a jovem sentada frente a mim sem me olhar, com os olhos perdidos no fastio daquele interregno em que todo mundo parece consultar uma área de visão que não é a circundante, salvo as crianças que olham fixo e em cheio para as coisas até o dia em que lhes ensinam a situar-se também nos interstícios, a olhar sem ver com aquela ignorância cortês de toda presença vizinha, de todo contato sensível, cada qual instalado em sua bolha, alinhado entre parênteses, cuidando em manter o mínimo de espaço entre joelhos e cotovelos alheios, refugiando-se no France-Soir ou em livros de bolso, embora quase sempre como Ana, uns olhos se situando no oco entre o verdadeiramente observável, naquela distância neutra e estúpida que ia de minha cara à do homem concentrado no Figaro. Mas então Margrit, se eu podia prever alguma coisa era que em dado momento Ana se voltaria distraída para a janela e então Margrit veria meu reflexo, o cruzamento de olhares nas imagens daquela vidraça onde a escuridão do túnel põe seu mercúrio atenuado, sua felpa roxa e móvel que dá às caras uma vida em outros planos, tira-lhes aquela horrível máscara de giz das luzes municipais do vagão e sobretudo, oh, sim, você não poderia negar, Margrit, as obriga a olhar de verdade aquela outra cara do vidro porque durante o tempo instantâneo do olhar duplo não há censura, meu reflexo na vidraça não era o homem sentado defronte de Ana e que Ana não devia olhar em cheio num vagão de metrô, e ademais quem estava olhando meu reflexo já não era Ana e sim Margrit no momento em que Ana desviara rapidamente o olhar do homem sentado defronte dela porque não ficava bem que olhasse para ele, e ao voltar-se para o vidro da janela tinha visto meu reflexo que esperava aquele instante para sorrir ligeiramente sem insolência nem esperança quando o olhar de Margrit caísse como um pássaro em seu olhar. Deve ter durado um segundo, talvez um pouco mais porque senti que Margrit havia percebido aquele sorriso que Ana reprovava embora não fosse mais que por causa do gesto de baixar o rosto, de examinar vagamente o fecho de sua bolsa de couro vermelho; e era quase justo continuar sorrindo se bem que Margrit já não me olhasse porque de alguma maneira o gesto de Ana acusava meu sorriso, seguia-a sabendo e já não era necessário que ela ou Margrit olhassem para mim aplicadamente concentradas na miúda tarefa de experimentar o fecho da bolsa vermelha.
Assim foi com Paula (com Ofélia) e com tantas outras que se tinham concentrado na tarefa de verificar um fecho, um botão, a dobra de uma revista, mais uma vez foi o poço onde a esperança se enredava com o temor numa intensa cãibra de aranhas até a morte, onde o tempo começava a latejar como um segundo coração no pulso do jogo; desde esse momento cada estação do metrô era uma trama diferente do futuro porque o jogo decidira daquela maneira; o olhar de Margrit e meu sorriso, o recuo instantâneo de Ana à contemplação do fecho da bolsa eram a abertura de uma cerimônia que um belo dia começara a celebrar contra tudo quanto fosse razoável, preferindo os piores desencontros às correntes estúpidas de uma casualidade cotidiana. Explicá-lo não é difícil mas jogá-lo tinha muito de combate às cegas, trêmula suspensão coloidal na qual todo itinerário erguia uma árvore de imprevisível percurso. Um plano do metrô de Paris define em seu esqueleto mondrianesco, em seus galhos vermelhos, amarelos, azuis e pretos uma vasta porém limitada superfície de subtendidos pseudópodes; e aquela árvore está viva vinte horas em cada vinte e quatro, uma seiva atormentada a percorre com finalidades precisas, a que desce em Châtelet ou sobe em Vaugirard, a que em Odéon muda para continuar até La Motte-Picquet, as duzentas, trezentas, sabe-se lá quantas possibilidades de combinação para que cada célula codificada e programada ingresse num setor da árvore e aflore em outro, saia das Galeries Lafayette para depositar um embrulho de toalhas ou um abajur num terceiro andar da rue Gay-Lussac.
Minha regra do jogo era maniacamente simples, era bela, estúpida e tirânica, se eu gostava de uma mulher, se eu gostava de uma mulher sentada à minha frente, se eu gostava de uma mulher sentada em frente a mim junto da janela, se seu reflexo na janela cruzava o olhar com meu reflexo na janela, se meu sorriso no reflexo da janela perturbava ou agradava ou rejeitava o reflexo da mulher na janela, se Margrit me via sorrir e então Ana baixava a cabeça e começava a examinar atentamente o fecho de sua bolsa vermelha, então havia jogo, dava exatamente na mesma que o sorriso fosse aceito ou respondido ou ignorado, o primeiro tempo da cerimônia não ia além disso, um sorriso registrado por quem o havia merecido. Então começava o combate no poço, as aranhas no estômago, a espera com seu pêndulo de estação em estação. Lembro-me de como acordei naquele dia: agora eram Margrit e Ana, mas uma semana atrás tinham sido Paula e Ofélia, a moça loura descera numa das piores estações, Montparnasse-Bienvenue, que abre sua hidra mal-cheirosa às máximas possibilidades de fracasso. Minha conexão era com a linha da Porte de Vanves e quase em seguida, no primeiro corredor, compreendi que Paula (que Ofélia) tomaria o corredor que levava à conexão com a Mairie d'Issy. Impossível fazer alguma coisa, só olhar para ela pela última vez no cruzamento dos corredores, vê-la afastar-se, descer uma escada. A regra do jogo era aquela, um sorriso na vidraça da janela e o direito de seguir uma mulher e esperar desesperadamente que sua conexão coincidisse com a decidida por mim antes de cada viagem; e então — sempre, até agora — vê-la tomar outro corredor e não poder segui-la, obrigado a voltar ao mundo de cima e entrar num café e continuar vivendo até que pouco a pouco, horas ou dias ou semanas, a sede de novo reclamando a possibilidade de que tudo coincidisse eventualmente, mulher e vidraça da janela, sorriso aceito ou rejeitado, conexões de trens e então finalmente sim, então o direito de aproximar-se e dizer a primeira palavra, espessa de tempo estancado, de interminável pilhagem no fundo do poço entre as aranhas da cãibra.
Agora entrávamos na estação de Saint-Sulpice, alguém do meu lado se levantava e ia embora, também Ana ficava sozinha diante de mim, deixara de olhar a bolsa e uma ou duas vezes seus olhos me varreram distraidamente antes de se perderem no anúncio de termas que se repetia nos quatro cantos do vagão. Margrit não tinha voltado a olhar para mim na janela mas aquilo provava o contato, seu latejar sigiloso; Ana era talvez tímida ou simplesmente lhe parecia absurdo aceitar o reflexo daquela cara que voltaria a sorrir para Margrit; e além disso chegar a Saint-Sulpice era importante porque, se ainda faltavam oito estações até o final do percurso na Porte D'Orléans, só três tinham conexões com outras linhas, e só se Ana descesse numa daquelas três me restaria a possibilidade de coincidir; quando o trem começava a frear em Saint-Placide olhei e olhei para Margrit procurando-lhe os olhos que Ana continuava encostando suavemente nas coisas do vagão como que admitindo que Margrit não olharia mais para mim, que era inútil esperar que voltasse a olhar o reflexo que a esperava para sorrir-lhe.
Não desceu em Saint-Placide, soube-o antes que o trem começasse a frear, existe esse preparativo do viajante, sobretudo das mulheres que nervosamente verificam embrulhos, atam o casaco ou olham de lado ao levantar-se, evitando joelhos naquele instante em que a perda de velocidade trava e estonteia os corpos. Ana repassava vagamente os anúncios da estação, a cara de Margrit foi se apagando sob as luzes da plataforma e não pude saber se tinha voltado a olhar para mim; também meu reflexo não teria sido visível naquela maré de néon e anúncios fotográficos, de corpos entrando e saindo. Se Ana descesse em Mont-parnasse-Bienvenue minhas possibilidades eram mínimas, como não me lembrar de Paula (de Ofélia) lá onde uma possível conexão quádrupla estreitava qualquer previsão; e entretanto no dia de Paula (de Ofélia) tivera certeza absoluta de que coincidiríamos, até o último momento caminhava a três metros daquela mulher lenta e loura, que parecia vestida de folhas secas, e sua bifurcação à direita me envolvera a cara como uma chicotada. Por isso agora Margrit não, por isso o medo, de novo podia ocorrer abominavelmente em Montparnasse-Bienvenue; a lembrança de Paula (de Ofélia), as aranhas no poço contra a miúda confiança em que Ana (em que Margrit). Mas ninguém pode contra aquela ingenuidade que nos vai deixando viver, quase imediatamente disse comigo mesmo que talvez Ana (que talvez Margrit) não descesse em Montparnasse-Bienvenue, mas em uma das outras estações possíveis, que talvez não descesse nas intermediárias, onde não me era dado segui-la; que Ana (que Margrit) não desceria em Montparnasse-Bienvenue (não desceu), que não desceria em Vavin, e não desceu, que talvez descesse em Raspail, que era a primeira das duas últimas possíveis; e quando não desceu e eu soube que só restava uma estação na qual podia segui-la contra as três finais em que tudo já dava na mesma, procurei de novo os olhos de Margrit na vidraça da janela, chamei-a de um silêncio e de uma imobilidade que deveriam chegar até ela como uma exigência, como um marulho, sorri-lhe com o sorriso que Ana já não podia ignorar, que Margrit tinha de admitir embora não olhasse para meu reflexo açoitado pelas meias-luzes do túnel desembocando em Denfert-Rochereau. Talvez o primeiro golpe dos freios tenha feito tremer a bolsa vermelha nas coxas de Ana, talvez só o tédio lhe mexesse a mão até a mecha preta que atravessava sua testa; naqueles três, quatro segundos em que o trem se imobilizava na plataforma, as aranhas cravaram suas unhas na pele do poço para mais uma vez me vencer partindo de dentro; quando Ana se ergueu com uma só e límpida flexão de seu corpo, quando a vi de costas entre os passageiros, acho que procurei ainda absurdamente o rosto de Margrit na vidraça ofuscado de luzes e movimento. Saí como que sem o saber, sombra passiva daquele corpo que descia na plataforma, até despertar para o que viria, para a dupla escolha final cumprindo-se irrevogável.
Penso que está claro, Ana (Margrit) tomaria um caminho cotidiano ou circunstancial, enquanto antes de subir naquele trem eu decidira que se alguém entrasse no jogo e descesse em Denfert-Rochereau, minha conexão seria a linha Nation-Étoile, da mesma maneira que se Ana (que se Margrit) tivesse descido em Châtelet só poderia segui-la no caso de tomar a conexão Vincennes-Neuilly. No último momento da cerimônia o jogo estava perdido se Ana (se Margrit) tomasse a conexão da Ligne de Sceaux ou saísse diretamente à rua; imediatamente, mesmo porque naquela estação não havia os intermináveis corredores de outras vezes e as escadas conduziam rapidamente ao destino, àquilo que nos meios de transporte também se chamava destino. Eu a via mexer-se entre as pessoas, sua bolsa vermelha como um pêndulo de brinquedo, erguendo a cabeça à procura dos letreiros indicadores, vacilando um instante até orientar-se para a esquerda; mas a esquerda era a saída que levava à rua.
Não sei como dizer, as aranhas mordiam demais, não fui desonesto no primeiro minuto, simplesmente a segui para depois talvez admitir, deixá-la partir para qualquer de seus rumos lá em cima; no meio da escada compreendi que não, que talvez a única maneira de matá-las fosse negar ao menos uma vez a lei, o código. A cãibra que me crispara naquele segundo em que Ana (em que Margrit) começava a subir a escada proibida cedia lugar de repente a uma fadiga sonolenta, a um golem de lentos degraus; recusei-me a pensar, bastava saber que continuava a vê-la, que a bolsa vermelha subia em direção à rua, que a cada passo o cabelo preto lhe tremia nos ombros. Já era de noite e o ar estava gelado, com alguns flocos de neve entre rajadas e chuvisco; sei que Ana (que Margrit) não teve medo quando me coloquei a seu lado e lhe disse: "Não é possível que nos separemos assim, antes de nos termos encontrado."
No café, mais tarde, agora somente Ana enquanto o reflexo de Margrit cedia a uma realidade de cinzano e palavras, disse-me que não compreendia nada, que se chamava Marie-Claude, que meu sorriso no reflexo lhe fizera muito mal, que em dado momento pensara em se levantar e mudar de lugar, que não tinha me visto segui-la e que na rua não sentira medo, contraditoriamente, olhando nos meus olhos, bebendo seu cinzano, sorrindo sem se envergonhar de sorrir, de ter aceitado quase em seguida minha abordagem em plena rua. Naquele momento de uma felicidade como que esparramada, de abandono a um deslizar cheio de álamos, não podia dizer-lhe o que ela teria imaginado como loucura ou mania e que era assim mas de outra maneira, de outras margens da vida; falei-lhe de sua mecha de cabelo, de sua bolsa vermelha, de seu modo de olhar para o anúncio das termas, de que não lhe tinha sorrido por donjuanismo nem tédio mas para dar-lhe uma flor que não possuía, o sinal de que gostava dela, de que me fazia bem, de que viajar defronte dela, de que outro cigarro e outro cinzano. Em nenhum momento fomos enfáticos, falamos como de algo já conhecido e aceito, olhando-nos sem nos machucar, acho que Maria-Claude me deixava vir e estar em seu presente como talvez Margrit teria respondido a meu sorriso na vidraça se não houvesse de permeio tantas idéias preconcebidas, tanto não deve responder se falarem com você na rua ou lhe oferecerem balas e quiserem levá-la ao cinema, até que Maria-Claude, já libertada de meu sorriso a Margrit, Marie-Claude na rua e o café pensara que era um bom sorriso, que o desconhecido lá de baixo não tinha sorrido para Margrit para tatear outro terreno, e minha maneira absurda de abordá-la tinha sido a única compreensível, a única razão para dizer que sim, que podíamos beber um drinque e conversar num café.
Não me lembro o que pude contar-lhe de mim, talvez tudo a não ser o jogo mas então só isso, em dado momento rimos, alguém fez a primeira piada, descobrimos que gostávamos dos mesmos cigarros e de Catherine Deneuve, deixou-me acompanhá-la até a entrada de sua casa, estendeu-me a mão com firmeza e consentiu no mesmo café à mesma hora de terça-feira. Peguei um táxi para voltar a meu bairro, pela primeira vez em mim mesmo como num incrível país estrangeiro, repetindo-me que sim, que Marie-Claude, que Denfert-Rochereau, apertando as pálpebras para guardar melhor seu cabelo preto; aquela maneira de mexer a cabeça de lado antes de falar, de sorrir. Fomos pontuais e nos contamos filmes, trabalho, verificamos diferenças ideológicas parciais, ela continuava me aceitando como se maravilhosamente lhe bastasse aquele presente sem razões, sem interrogação; nem parecia perceber que qualquer imbecil a teria tomado por fácil ou tola; acatando inclusive que eu não tratasse de compartilhar o mesmo banco no café, que no percurso da rue Froidevaux não lhe passasse o braço pelo ombro no primeiro sinal de uma intimidade, que a sabendo quase só — uma irmã mais moça, muitas vezes ausente do apartamento do quarto andar — não lhe pedisse para subir. Se de alguma coisa não podia desconfiar era das aranhas, tínhamo-nos encontrado três ou quatro vezes sem que mordessem, imóveis no poço e esperando até o dia em que eu soube como se não tivesse sabido o tempo todo, mas às terças-feiras, chegar ao café, imaginar que Marie-Claude já estaria lá ou vê-la entrar com seus passos ágeis, sua morena recorrência que lutara inocentemente contra as aranhas outra vez acordadas, contra a transgressão do jogo que só ela tinha podido defender apenas me dando uma breve, morna mão, somente aquela mecha de cabelo que passeava por sua testa. Em dado momento deve ter percebido, ficou calada olhando para mim, esperando; já era impossível que não me delatasse o esforço para fazer durar a trégua, para não admitir que voltavam pouco a pouco apesar de Marie-Claude, contra Marie-Claude que não podia compreender, que ficava calada olhando para mim, esperando; beber e fumar e falar-lhe, defendendo até o fim o doce interregno sem aranhas, saber de sua vida simples e com horário e irmã estudante e alergias, desejar tanto aquela mecha preta que lhe penteava a testa, desejá-la como um término, como realmente a última estação do último metrô da vida, e então o poço, a distância de minha cadeira àquele banquinho em que nos teríamos beijado, em que minha boca teria bebido o primeiro perfume de Maria-Claude antes de levá-la abraçada até sua casa, subir aquela escada, despir-nos finalmente de tanta roupa e tanta espera.
Então eu lhe disse, lembro-me do muro do cemitério e de que Marie-Claude encostou-se nele e me deixou falar com o rosto perdido no musgo quente de seu casaco, quem sabe se minha voz lhe chegou com todas as suas palavras, se foi possível que compreendesse: disse-lhe tudo, cada detalhe do jogo, as improbabilidades confirmadas desde tantas Paulas (desde tantas Ofelias) perdidas no fim de um corredor, as aranhas em cada final. Chorava, sentia-a tremer contra mim embora continuasse me agasalhando, sustentando-me com todo seu corpo encostado no muro dos mortos; não me perguntou nada, não quis saber por que nem desde quando, não lhe ocorreu lutar contra uma máquina montada por toda uma vida a contrapelo de si mesma, da cidade e suas palavras de ordem, somente aquele choro ali como um animalzinho machucado, resistindo sem força ao triunfo do jogo, à dança exasperada das aranhas no poço.
Na porta de sua casa disse-lhe que nem tudo estava perdido, que dos dois dependia tentar um encontro legítimo; agora ela conhecia as regras do jogo, talvez nos fossem favoráveis dado que não faríamos outra coisa senão nos procurar. Disse-me que podia pedir quinze dias de férias, viajar levando um livro para que o tempo fosse menos úmido e hostil no mundo subterrâneo, passar de uma conexão a outra, esperar-me lendo, olhando os anúncios. Não quisemos pensar na improbabilidade, em que talvez nos encontraríamos num trem mas que não bastava, que desta vez não se poderia faltar ao preestabelecido; pedi-lhe que não pensasse, que deixasse correr o metrô, que não chorasse nunca naquelas duas semanas enquanto eu a procurava; sem palavras ficou entendido que se o prazo se esgotasse sem nos tornarmos a ver ou só nos vendo até que dois corredores diferentes nos separassem, já não faria sentido voltar ao café, à porta de sua casa. Ao pé daquela escada de bairro que uma luz alaranjada estendia docemente para cima, para a imagem de Marie-Claude em seu apartamento, entre seus móveis, nua e dormindo, beijei-a no cabelo, acariciei-lhe as mãos; ela não procurou minha boca, foi se afastando e a vi de costas, subindo outras das tantas escadas que as levavam sem que pudesse segui-las; voltei a pé para casa, sem aranhas, vazio e lavado para a nova espera; agora não podiam me fazer nada, o jogo ia recomeçar como tantas outras vezes mas só com Marie-Claude, segunda-feira descendo a estação Cou-ronnes de manhã, saindo em Max Dormoy em plena noite, terça-feira entrando em Crimée, quarta-feira em Philippe Auguste, a precisa regra do jogo, quinze estações nas quais quatro tinham conexões, e então na primeira das quatro sabendo que teria de continuar até a linha Sèvres-Montreuil como na segunda teria de tomar a conexão Clichy-Porte Dauphine, cada itinerário escolhido sem uma razão especial porque não podia existir nenhuma razão, Marie-Claude teria subido talvez perto de sua casa, em Denfert-Rochereau ou em Corvisart, estaria trocando em Pasteur para continuar até Falguière, a árvore mondrianesca com todos os seus galhos secos, acaso das tentações vermelhas, azuis, brancas, pontilhadas; quinta, sexta, sábado. De qualquer plataforma ver entrar os trens, os sete ou oito vagões, permitindo-me olhar enquanto passavam cada vez mais lentos, chegar até o fim e subir num vagão sem Marie-Claude, descer na estação seguinte e esperar outro trem, seguir até a primeira estação para procurar outra linha, ver chegar os vagões sem Marie-Claude, deixar passar um trem ou dois, subir no terceiro, continuar até o terminal, retornar a uma estação de onde podia passar para outra linha, decidir que só tomaria o quarto trem, abandonar a procura e subir para comer, retornar quase em seguida com um cigarro amargo e sentar-me num banco até o segundo, até o quinto trem. Segunda, terça, quarta, quinta, sem aranhas porque ainda esperava, porque ainda espero neste banco da estação Chemin Vert, com este caderninho em que uma mão escreve para inventar um tempo que não seja só aquela interminável rajada que me projeta em direção ao sábado no qual talvez tudo terá acabado, em que voltarei sozinho e as sentirei acordar e morder, suas pinças enraivecidas exigindo-me o novo jogo, outras Marie-Claudes, outras Paulas, a reiteração depois de cada fracasso, o recomeçar canceroso. Mas é quinta-feira, é a estação Chemin Vert, lá fora cai a noite, ainda se pode imaginar qualquer coisa, inclusive pode não parecer incrível demais que no segundo trem, que no quarto vagão, que Marie-Claude num assento contra a janela, tenha me visto e se levante com um grito que ninguém salvo eu pode escutar assim em plena cara, em plena corrida para saltar do vagão lotado, empurrando passageiros indignados, murmurando desculpas que ninguém espera nem aceita, ficando de pé contra o assento duplo ocupado por pernas e guarda-chuvas e embrulhos, por Marie-Claude com seu agasalho cinza contra a janela, a mecha preta que o arranco repentino do trem apenas agita como suas mãos tremem em cima das coxas num chamado que não tem nome, que é só isso que agora vai acontecer. Não há necessidade de falar, não se poderia dizer nada por cima desse muro impassível e desconfiado de caras e guarda-chuvas entre mim e Marie-Claude; restam três estações que fazem conexão com outras linhas, Marie-Claude deverá escolher uma delas, percorrer a plataforma, seguir por um dos corredores ou procurar a escada de saída, alheia à minha escolha que desta vez não transgredirei. O trem entra na estação Bastille e Marie-Claude continua ali, as pessoas descem e sobem, alguém deixa desocupado o assento a seu lado mas não me aproximo, não posso me sentar ali, não posso tremer junto dela como ela estará tremendo. Agora vêm Ledru-Rollin e Froidherbe-Chaligny, naquelas estações sem conexão Marie-CIaude sabe que não posso segui-la e não se mexe, o jogo tem de ser jogado em Reuilly-Diderot ou em Daumesnil; enquanto o trem entra em Reuilly-Diderot afasto os olhos, não quero que saiba, não quero que possa compreender que não é ali. Quando o trem arranca vejo que não se mexeu, que nos resta uma última esperança, em Daumesnil há apenas uma conexão e a saída para a rua, vermelho ou preto, sim ou não. Então olhamos um para o outro, Marie-CIaude ergueu o rosto para encarar-me em cheio, agarrado à barra do assento sou aquilo que ela olha, alguma coisa tão pálida como o que estou olhando, o rosto sem sangue de Marie-CIaude que aperta a bolsa vermelha, que vai fazer o primeiro gesto para levantar-se enquanto o trem entra na estação Daumesnil.
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